segunda-feira, 9 de junho de 2008

Não! Recuso-me!



Quando soube que Mike Newell tinha adaptado para o cinema O Amor nos Tempos de Cólera, tomei imediatamente uma firme decisão: «Não vou ver o filme. Nem que chova a Natalie Portman.»
O Amor nos Tempos de Cólera é, para mim, O romance. Não o li tantas vezes como li Cem Anos de Solidão (sete vezes, pelo que me recordo), mas considero-o o melhor romance de García Márquez: o meu escritor preferido. É um livro perfeito na sua estrutura, genial na construção das personagens, com uma narrativa inexcedível, e escrito com a minúcia, o primor, a beleza e a paciência que só os relojoeiros do séc. XIX dedicavam ao seu prodigioso ofício.
Invariavelmente, os filmes reduzem os livros e roubam-lhes a alma. No caso da escrita mágica de Gabo, degolam-nos a imaginação e destroem as cores, as brisas temperadas ou os odores que vimos e sentimos ao ler os seus livros.
Gabriel García Márquez quase não usa diálogos, as falas são raras, e normalmente curtas, e só aparecem quando são estritamente necessárias e justificam um soco de inspiração na nossa leitura. Ele não precisa dos diálogos; porque apura tão bem as palavras e compõe de tal forma as frases e os parágrafos, que as suas imagens, metáforas ou “simples” descrições, nos fazem entender tudo – rigorosamente tudo.
Por isso - e tudo o mais que tem merecido teses e teses -, é de todo impossível “explicar” na tela o “universo” de Gabo. Não é exequível, por exemplo, que algum realizador de cinema seja capaz de transmitir, por inteiro, a sabedoria expressa nesta frase, em que García Marquez descreve um complexo sentimento de Fermina Daza por Juvenal Urbino: «Por isso não o tratava como a um velho difícil mas como a um menino senil, e esse engano foi providencial para os dois, porque os salvou da compaixão.»
Não! Não vou ver o filme. Não vou estragar um dos mais deliciosos e exaltantes sonhos literários a minha vida.

P.S. Aceitei, intimamente contrariado, esta foto que Ma Belle me enviou. Uma bela foto, aliás.

1 comentário:

Menina Veneno disse...
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