A uma alma confundida com o meu carácterNão são as flores, o calor, as andorinhas, o fogo intenso do Sol, a cor das manhãs, ou o extenso ocaso, que faz da Primavera o período mais aclamado pelos homens. O que sanciona o gosto celestial dos homens heterossexuais por esta estação do ano, são as primeiras revelações femininas: os tornozelos despidos, a redescoberta dos ombros e das costas nuas, o umbigo assinalado, e depois as coxas, os joelhos polidos e a pele: toda a sua fracção visível.
Para nós, muito mais do que um mergulho na água fresca, as férias planeadas, ou as viagens exóticas, é a beleza feminina – naturalmente emoldurada pelo encanto da Natureza transformada - que nos confunde os sentidos, nos enrosca o cérebro em fantasias eróticas, nos inibe das depressões sazonais, nos faz crescer, subitamente, e sem consentimento, o membro da Vida, e nos faz cantarolar as broncas letras das músicas de Verão antecipadas, com uma distinta patetice gomada no rosto. Para os homens, não há mar de Cabo Verde, poemas de amor juvenil, velas acesas no escuro da praia, leituras do Paulo Coelho, ou profundos suspiros filosóficos. Para os homens heterossexuais, na Primavera, só existe a estética curvilínea das mulheres e o apelo ingovernável da líbido.

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