quinta-feira, 19 de junho de 2008

Falta-me tempo para ser rico

Para usar um chavão, sou uma rica pessoa, mas não sou uma pessoa rica. E isso, como calculam, não é lá muito confortável.
Devo dizer que tenho o mais profundo desprezo pelo dinheiro; e a prova disso é que o gasto ou ofereço todo, sem fazer cálculos ou contas de subtrair – sim, porque o dinheiro nas minhas mãos diminui vertiginosamente.
Nos últimos meses, por razões que não vou explicar, dei comigo a pensar que gostava de ser rico. Bom... não é rico, rico, rico. Não é sequer rico. É só ter o suficiente para subir acima do remediado.
E o que fazem as pessoas comuns quando querem ganhar dinheiro? Mudam de empresa ou profissão? Não! Arranjam dois empregos? Não! Fazem horas extraordinárias? Não! Está bom de ver que não. Naturalmente, começam a jogar no Euromilhões. Foi o que comecei a fazer, mas a merda do prémio nunca mais me sai, e sinto uma dolorosa injustiça divina, porque se há alguém que mereça ganhar uns milhões de euros sou precisamente eu. Porquê eu? Exactamente pelas mesmas razões que vocês invocam para o merecerem – não sei quais são as vossas razões, mas faço-as desde já minhas.

Eu não queria dinheiro para carros de luxo, veleiros, caviar, palácios ou gajas boas. Bem... gajas boas, sim! Porque sei, por amargurada experiência própria, como é cada vez mais difícil arranjar uma gaja boa que nos queira - o que, no meu caso, é compreensível: estou um chaço e não tenho um tostão. Às vezes (poucas) iludo uma ou outra incauta com elevadas conversas sobre Literatura e Ciência Política, mas elas acabam por nem sequer chegarem a ler o Bioy Casares e o Ramonet que lhes recomendo, tal é a pressa de se livrarem de mim – para ser mais exacto, para fugirem - antes do Verão - da vergonha de partilharem em público a minha proeminente pança.

Vejam bem. Eu só queria ter dinheiro suficiente para ter tempo. (Ocorre-me agora, ao fim de tantos anos a ouvi-la, o verdadeiro significado da expressão «tempo é dinheiro».) Repito: eu quero dinheiro para ter tempo. E, tendo tempo, ganhar dinheiro. Parece parvo (o que, tratando-se de mim, não era de estranhar), mas o que eu preciso, juro-vos, é de tempo para ganhar dinheiro.
Eu explico! Se tivesse tempo – ou seja, se não tivesse obrigações profissionais (escrevi obrigações profissionais para realçar, justamente, a palavra «obrigações»; mas o mais comum é chamarmos-lhe emprego) -, eu podia ler, TODOS OS DIAS, até às três da madrugada, e depois escrever até às oito da manhã, sem pensar que a seguir tinha de arrostar a escola com uma “directa”.
E como ganhava o dinheiro? Escrevendo, obviamente. E lendo, lendo muito, para escrever muito e mais e bem – esta é a parte mais difícil, porque está por provar que a minha escrita seja tão boa que me permita ganhar dinheiro a escrever livros. Mas já ouvi dizer que sim, que consigo, que posso ser um bom escritor e essas coisas. Em todo o caso, sem tempo para escrever não posso...escrever. E, sem escrever, não publico livros e não ganho dinheiro. E isso, naturalmente, aborrece-me.

Bolas! Não existe por aí uma providência qualquer (aceito donativos!) que me queira dar uma oportunidade de ter dinheiro para ter tempo para ter dinheiro?
Suponhamos que sim, que aparecia uma providência e que me caíam uns bons trocos na conta bancária. Posso imaginar os meus dias, dia a dia, a partir desse mesmo dia.
Quando acabasse de escrever, às oito da manhã, nadava dez minutos numa modesta piscina caseira. Depois, se fosse verão, sentava-me no alpendre a tomar o pequeno-almoço e a repousar as meninges, ouvindo música. Saía às dez, para comprar carne, peixe e legumes frescos, e voltava para fazer o almoço - confeccioná-lo, seria o termo mais indicado.
Adoro cozinhar e até já comprei um par de livros de culinária. Não são livros de receitas (isso oferecem no hipermercado), são livros que ensinam tudo sobre temperos, ervas aromáticas, composições, calorias, técnicas de cozinha, e por aí fora.
A seguir ao almoço, via e lia as notícias, e depois dormia até às oito da noite. Jantava uma salada, e deitava-me no sofá a ver um filme, um programa interessante ou o Dr. House, até à meia-noite. E assim sucessivamente. Em dias de pouca inspiração, ou de preguiça, via a Tv Shop até de manhã. Não há nada melhor do que ver a Tv Shop para sentirmos uma doce alegria por estarmos vivos e sãos - sobretudo, mentalmente sãos. Comigo funciona.

Além disto tudo, procurava arranjar uma companhia feminina intermitente. Apesar de já ter percorrido muito caminho, lembro-me sempre de uma frase que devo ter lido estampada no vidro traseiro de uma carrinha de pão: «Não podes deitar-te com todas as mulheres do mundo, mas deves fazer um esforço…».

Porra! Dêem-me tempo!

2 comentários:

Menina Veneno disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
LFM disse...
Este comentário foi removido pelo autor.